27 de mar. de 2015

Em um reino tão distante quanto imaginário, uma moça muito linda bateu na porta do castelo em uma noite sem lua. Sua pele, de tão pálida, chegava a sutis transparências e era colorida por suas pequenas veias verdes e azuis. Essa moça, de cabelos da cor do fogo, disse ser princesa de outro reino ainda mais longínquo e encantou o rei, a rainha e o príncipe. A única pessoa a quem seu feitiço não alcançava era a jovem princesa.
Feitiço é a melhor palavra, visto que a jovem era uma bruxa, que seduziu a todos e tomou o reino para si. Isolou a família real no castelo, em uma ala distante, impediu-os de sair e afastou todas as pessoas das redondezas, para que não tivessem como pedir abrigo. Seu alimento era o horror, então fazia um esforço constante, correndo nua pelas salas do castelo, para que seus prisioneiros vivessem em um pesadelo. Pesadelo esse que era sempre mais intensificado na jovem princesa, que não estava nunca dopada e odiava a bruxa com todas as suas forças. Os outros acreditavam-na ser a cura para aqueles demônios que tomavam o castelo.
Certa noite, um vento poderoso abriu uma janela quando o príncipe passava por perto. A bruxa saíra para gerir o reino. Foi quando ele se deu conta de que havia se casado com a bruxa e que ela tentava com fúria e constância ter um filho seu. Ficou tonto ao respirar um ar que não fosse cheio da pestilência e mais tonto ainda ao perceber a magreza de seu corpo e a imundice de seu castelo.
O vento fora conjurado pela princesa, sua irmã, que possuía também o domínio do sobrenatural. Ela gastara suas últimas semanas costurando em segredo uma corda feita com seus lindos vestidos e, agora, suas poucas energias pedindo ao vento que abrisse aquela janela e a um unicórnio que se aventurasse em terras tão perigosas quanto agora era o castelo para tirá-los dali e poderem enfrentar a bruxa de igual para igual.
O príncipe tomou a irmã nos braços e desceu a torre com a corda improvisada. O vento, apaixonado pela princesa pequena, frágil e incrivelmente poderosa, os amparou em sua fuga e chegaram ao chão milagrosamente em segurança.
Correram a noite inteira montados no unicórnio, a princesa teve de convencer ao irmão que só poderiam descansar de dia, já que a bruxa os caçaria quando sol não pudesse feri-la e nem aos demônios que criava.
Eu era o príncipe, a bruxa e a princesa. E acordei sem saber o que deles foi feito.

9 de jun. de 2013


Das coisas de ser mulher: dormir sobre os textos à tarde e sonhar que diversos homens lhe ameaçam de estupro rindo, brincando. E passeiam a mão pelo seu corpo como se fosse nada. Mas era sonho, a polícia de pronto parou. E era tão real que se juntou à 'brincadeira'. 

Hoje andei lendo sobre o estatuto do nascituro. O sonho é a expressão inconsciente da violência do Estado. Isso é tortura:
ter os sonhos perturbados pela constante possibilidade que se acabem. Machismo mata - e mata um pouco todo dia.



por Yasmin Rodrigues

6 de mai. de 2013

Fábula


O coração daquela vastidão inabitada de terra era uma fada. O continente era fértil, mas seco. Quando o marinheiro chegou a ele havia pouco mais de uma fonte d’água para saciar sua sede.
Vindo do Oriente, amarrou sua canoa no píer já meio carcomido de maresia e entrou. Com o toque de seus pés na areia fria, o encanto se desfez e a fada fez-se chuva. Era amor que lavava a terra, era amor que fazia brotar sementes de toda cor.
Ela amou o marinheiro e quis tirar o sal que o cobria todo e ardia em suas feridas quando o tocava. Para poder amá-lo, recolheu suas asas de chuva e fez-se rio, fez-se margem. Queria que o marinheiro navegasse suas bacias hidrográficas até o coração do coração do continente. Cada grão daquela terra o amava, pois ele era vento suave que balançava os galhos e as frutas verdes. Ele era vento suave que agitava a saia de folhas, conchas e insetos da fada e lhe fazia rir e dançar. E o riso da fada dava luz ao continente. As plantas cresciam.
Mas o marinheiro, feito de vento, amante do oceano, não quis continuar naquela terra. Sabia-a bela, queria-a bem, mas o mundo era seu para descobrir e a canoa pequena e instável era sua única companheira. Não havia lugar para a fada ou bacias hidrográficas. Ela ficou no píer, esperando seu retorno. Não choveu mais.
Por duas vezes ele aportou rápido no continente, apertou a fada em seus braços e bebeu de sua chuva, comeu de seus frutos. A fada lhe concedia tudo, concedia e mostrava os rios, perguntando se ele não queria explorar para dentro ao invés de solitário, se ele não queria conhecer o coração de uma terra. O marinheiro deu todos os motivos do mundo e a fada entendeu o motivo real: não, ele não queria. Não lhe fazia sentido. Ele não deixaria de ser marinheiro por navegar em rios e poderia ir para o mar sempre que sentisse vontade, mas por que não queria dar-lhe chuva? Por que não queria dar-lhe sol? Porque não.
A terra estava coberta de sal. A chuva que caía sobre o continente não era alimento das plantas, mas lágrimas de fada. O continente fez-se noite do mesmo modo que fizera quando, há tempos, a fada amara a primavera e as estações seguiram seu curso.
A fada era o coração daquela terra ou a terra era o coração da fada? A mágica fez com que o rio grande que cortava o continente em dois crescesse e crescesse e engolisse terra, plantas e bichos. As asas animalescas abriam-se e só então ela soube: eram asas de albatroz. Fez-se terra por medo do vento e das ondas, mas nunca fora filha da terra. Sua casa era o movimento do mar.
O marinheiro desorientou-se ao não achar o píer e nem ninguém esperando-o e amaldiçoou aquela que não mais lhe concederia frutos e chuva. Acreditou-a morta. A fada era uma correnteza de água doce no fundo de um oceano. Sua saia agora era de conchas, areia, peixes e corais. E ela ficou triste pelo marinheiro, porque sua natureza de água não entendia como as coisas acabavam ao invés de mudar. Seu amor virara peixe e o dele, sal.


29 de abr. de 2013

Sem sereias e sem Ulisses

Há um livro que li pela primeira vez aos 12 anos e não conhecia de primeira pessoa o amor. Nesse momento ele me fez querer uma pessoa que me quisesse para além e apesar de tudo.
O li pela segunda vez aos 15 anos, quando jamais havia sido correspondida no amor. Nesse momento ele me fez querer uma pessoa que quisesse o que havia de bom e de mau em mim e que, acima de tudo, me compreendesse e esperasse.
A terceira vez veio em dezembro último, aos 20. Quando o amor veio certo apenas uma vez, tão certo e intenso quanto fugaz. O li porque amava um moço que queria que me amasse de volta. E achei que, se eu o esperasse como Ulisses espera Lóri, ele fosse me querer como ela o quis. A vida não é um livro.
Hoje, relendo minha passagem favorita do livro veio um nó no peito, uma vontade de chorar, porque acrescentar simples "eu te amo" ainda não veio. E sigo frustrada.
Frustrada porque transbordo em afeto sem conseguir que aqueles a quem quero ofertá-lo aceitem minha oferenda. Frustrada e ferida.
Como Lóri. Sem Ulisses.

"E acrescentou simples:
-Eu te amo.
Ela olhou-o com os olhos obscurecidos mas seus lábios estremeceram. Ficaram em silêncio por um momento.
-Teus olhos, disse ele mudando inteiramente de tom, são confusos mas tua boca tem a paixão que existe em você e de que você tem medo. Teu rosto, Lóri, tem um mistério de esfinge: decifra-me ou te devoro.
Ela se surpreendeu de que também ele tivesse notado o que ela via de si mesma no espelho.
-Meu mistério é simples: eu não sei como estar viva.
-É que você só sabe, ou só sabia, estar viva através da dor.
-É.
-E que não sabe como estar viva através do prazer?
-Quase que já. Era isso o que eu queria te dizer."

10 de abr. de 2013

Constelações

Eu participei pela primeira vez de um protesto mais ou menos uns dois meses antes de nascer, quando minha mãe riscou de batom vermelho "Fora Collor" na barrigona de grávida e saiu pra rua com as multidões. Na primeira greve eu tinha cinco anos e a primeira compreensão do que fazia o presidente: não pagava minhas
professoras da Creche UFF. Ai de quem falasse mal da greve delas perto de mim, eu corrigia a pessoa e dizia que, se o FHC as ouvisse, a greve acabava rapidinho. Na época, eu não sabia o nome do "FHC", sabia apenas que ele era culpado de todo mundo estar bravo.
A política, de um modo ou de outro, se confunde muitas vezes na minha história e na da minha família. Se tem gente que mal sabe sobre a história das lutas de nosso país e do mundo, meu avô fez sempre questão de falar das resistências e massacres o tempo todo, inclusive no almoço de Natal. Nunca esquecer.
Nas minhas memórias, eu tenho a presença constante da estrela vermelha e bonita do PT, igualzinha à da boina do Che no quadro que ficava no hall do meu avô. Se eu detestava o FHC bem pequenina, adorava o Lula e todas aquelas pessoas que carregavam bandeiras com a estrela bonita. As coisas seriam diferentes quando ganhássemos o governo, as coisas seriam mais vermelhas, era no que acreditavam os adultos da minha vida e eu concordava com eles. Fiz campanha em 2002 por todos os lugares e gritei de alegria quando "ganhamos". Mas coisas foram mudando e, pouco a pouco, notícias ásperas chegaram à minha casa e as bandeiras com a estrela vermelha foram sumindo da minha vida e dos meus sonhos, muita coisa aconteceu ao mesmo tempo e eu deixei de acreditar que algo realmente seria diferente com esse tipo de governo.
Tem uma história que resume bem essas minhas mudanças. Quando eu era criança, não me lembro quando, minha mãe me levou a um evento do PT, não me lembro qual, e, na saída, havia uma banquinha de levantamento de fundos para alguma campanha que vendia coisas do PT. Eu lembro até hoje de olhar as cartilhas, os broches, os bonés e uma camisa. Linda, rosa clarinha com os dizeres em roxo "Muito prazer, mulheres do PT". Eu queria aquela camisa, eu queria ser uma mulher do PT e fiz minha mãe comprá-la para mim. O problema é que não havia camisas de tamanho infantil e nem mesmo pequeno, só que eu pedi tanto que ela comprou a de tamanho médio, que ficou imensa em mim. Diante da minha frustração com o tamanho da camisa, a vendedora me disse gentilmente que eu a guardasse com carinho porque ela caberia em mim quando eu fosse grande, quando fosse uma mulher. Uma mulher do PT.
Nunca saí com essa camisa na rua, nunca sairei.
Com o sentimento de decepção ardendo no peito, me afastei da política na pré-adolescência. A estrela
bonita na boina do Che era passado, a estrela vermelha se apagara há muito e o resto era bobagem. De criança bastante radical, me tornei uma adolescente social-democrata. Sim, eu acreditei que poderia haver um capitalismo humano e todas aquelas outras histórias oficiais. Mas ainda olhava o quadro do Che com saudade de algo que nunca tive.
Aos treze anos, meu avô convenceu a minha mãe e a mim de que outra estrela poderia brilhar na figura de um sol amarelo e que valia a pena tentar de novo, valia a pena fundar algo novo e eu, uma adolescente saudosa de sonhos e de lutas, que me sentia oprimida em todo lugar que estava, peguei com vovô um monte de folhas e disse "elas voltarão assinadas". Lembro de convencer todos os meus professores, as professoras, os/as funcionários/as da escola, gente da rua... Todo mundo que fosse possível para encher as folhas, deixar meu avô feliz e participar do registro do PSOL. Enchi cada uma das linhas.
Ainda demoraram quatro anos para que eu pudesse votar no PSOL e, nesse tempo, continuei uma adolescente social-democrata que não participava de mobilizações sociais.
Isso começou a mudar justamente em 2010, quando eu descobri o blog Escreva Lola Escreva e que o feminismo não havia morrido. "Ah," pensei, conforme devorava textos e mais textos, "ah, então era isso o tempo todo. Então é isso o que me dói". Tornei-me mulher de modo totalmente misturado com tornar-me feminista e não sei separar as duas coisas.
Não era o bastante. Libertar mulheres é uma pauta fantástica, mas não faz nenhum sentido não libertar as mulheres da homofobia, da intolerância religiosa, do racismo, da pobreza. E por que não libertar os homens disso tudo também? Ser mulher feminista me tornou, pouco a pouco, socialista.
A UFRJ foi fundamental nesse processo. Todxs xs minhas/meus companheirxs do curso, do Centro Acadêmico, do DCE que se esforçaram para me ensinar coisas, me levar a pensar e a agir e lutaram tanto ao meu lado são pessoas fantásticas, das mais diferentes posições políticas.
Catorze anos depois da minha primeira greve, eu participei da segunda e me redescobri radical. Me redescobri também como bicho coletivo e, em meu peito, não fazia mais sentido ser socialista sozinha. Eu queria transbordar o que sentia e conhecia e queria absorver, não queria terminar em "eu" e chegar a "nós".
Era eleição de novo e, pela primeira vez, panfletei para o PSOL (embora fosse a quarta vez que fazia campanha por ele). Por convencimento político, por convicção ideológica e pela certeza de que o sol também é uma estrela. Quente, próxima, bonita como a da boina do Che.
Já em setembro eu soube que era questão de tempo até me filiar, já que eu já tinha tomado partido.
Meu avô partiu em janeiro, enquanto eu viajava por militância. Ele era o meu maior incentivador e adorávamos ficar longas horas falando do passado, do presente e do futuro. Apesar de ser historiador, ele era um homem que vivia os momentos e pensava sempre à frente. Conhecer o passado para, no presente, construir o futuro.
A última vez que eu o vi foi na véspera de minha viagem, em sua cama de hospital. Ele me leu vários poemas novos - depois que tomou coragem de mostrar um para mim e que eu disse ter adorado, não parou mais - e conversamos um pouco, ele estava exausto. Na hora de ir embora, eu lhe disse "Fica bom logo, gatão. Quando eu voltar conto todas as novidades", ele me respondeu "Adeus, Maria Luxemburgo, eu amo você". Eu ri, disse "até logo" e que o amava e viajei. Ele não foi capaz de atender ao meu pedido e eu nunca pude lhe contar mais nada.
Ao invés de me emburacar na tristeza, eu prefiro pensar em quão lutador ele foi, em como o amo, nas estrelas em sua casa e em fazer coisas que eu sei que ele gostaria de ouvir. A cada ato, debate, assembleia, me imagino ligando para ele e contando todos os detalhes, as falas, os sorrisos e as lutas conjuntas.
E eu imagino que ele adoraria saber que eu me filiei ao partido que ajudamos a criar. Assinar a ficha de filiação foi como encontrar um velho amigo e abraçá-lo forte e quente como um sol que brilha dentro de mim.
Como abraçar meu avô.

5 de abr. de 2013

Através

Ao olhar melhor o rosto da mulher à sua frente, reparou que a forte impressão que ela lhe causava era devida ao vermelho de seus olhos irritados e o roxo das olheiras fundas. "Política", ela sussurraria em resposta à pergunta não formulada. Ela tinha cara de ontem. Cara daquelas pessoas que fazem um trabalho tão alienante quanto os outros, com a desculpa de tentar-se desaliená-los todos, pensando nas metas vermelhas como os olhos que cingiam o horizonte. "Política", ela resmungaria, frustrada e exausta, tentando lidar com a realidade limitada que encontrava no mundo real.
E, no fundo, "Política" também queria dizer humildade. Reformavam formas tão velhas quanto tudo porque a ruptura total sem ser totalmente coletiva nada mai era do que esquizofrenia solitária. Então varava noites e sonhava...
"Política" era abrir mão de saúde e de status. E pra que mesmo?
Vermelho. Horizonte vermelho como os olhos que a encaravam no espelho.

Decidir

Os sons que te afligem rodopiam nas bocas, dançam no ar e chicoteiam tua pele. Há de novo em ti um medo de futuro, um descompasso de caminho. Pensaras tu que estudarias, irias ao trabalho, tuas pernas enlaçariam pernas e teus braços embalariam uma criança. Mas há sede de justiça em tua garganta e um frêmito de esperança nos olhos. Há nós antes de ti. E os laços atados por teus dedos no peito que é teu indicam outros tipos de nós. Laços atados que amarram medos. Talvez devesses liberá-los para sempre. Talvez devesses deles fazer origami como querias fazer com teus amores secos.
Uma borboleta seria bom. Ela voaria longe e viveria apenas três dias. Os dedos tremem, brincando com os laços. A verdade é que - se é que há verdade - é que tens medo do vento e da liberdade. Tuas asas se esticaram ontem e permaneces parada junto ao abismo sem saber se voarás ou não. Tuas penas sentem o vento fresco - de chuva? - e teus pés se agarram no chão, a medo.
Voarei, sussurras. Voarei. E permaneces parada, magnetizada junto ao abismo.
Estudarias, irias ao trabalho, tuas pernas enlaçariam pernas e teus braços embalariam uma criança. Há lugar para isso no voo. Estudarás, irás ao trabalho, tuas pernas enlaçarão pernas e teus braços embalarão uma criança. Não como na Sessão da Tarde, mas nunca quiseras tons pasteis e uma dublagem ruim. Voarei.
Voarei.
Voarei.
Salto.

23 de fev. de 2013

Vamos falar de mulheres. Vamos falar de Revolução. Vamos falar do 8 de Março.

Como autora de ficção e fascinada por antropologia, estou mais do que acostumada a lidar com mitos e histórias dos mais diversos tipos. Crio-os, adoro-os. Porém, quando são perpetuados de modo a convenientemente apagar partes inconvenientes da História, devemos combatê-los.
Esses mitos são encontrados em todos os lugares e costumamos chamá-los de “História Oficial”. A História, dizia meu avô, é contada pelos vencedores. E, aos vencedores, interessa que saibamos como eles são fofos. Um dos meus exemplos favoritos de representação crítica e metalinguística da História Oficial é a cena de “A Família Addams 2” em que Vandinha atua como Pocahontas na peça de celebração do Dia de Ação de Graças. Mais precisamente, este diálogo:

SARAH MILLER  Estou feliz por ter convidado os chippewas para nossa ceia sagrada. Lembrem-se de que esses selvagens são nossos convidados. Não devemos ficar surpresos com seus estranhos costumes. Afinal, eles não têm as nossas vantagens, como boas escolas, bibliotecas cheias de livros, xampu…
POCAHONTAS: Hau! Sou Pocahontas, uma jovem chippewa.
URSO VELOZ: Eu sou Urso Veloz, noivo de Pocahontas… na peça.
POCAHONTAS: Trouxemos um presente para esta festa sagrada.
(Entra um garoto vestido de peru)
PERU: Eu sou um peru. Me mata.
SARAH MILLER: Que presente bem pensado. Vocês são tão civilizados quanto nós. Só que usamos sapatos e temos sobrenome. Bem vindos à nossa mesa, primitivos amigos.
POCAHONTAS: Obrigada, Sarah Miller. Você é a pessoa mais linda que eu já vi. Seu cabelo tem a cor do sol, sua pele, a cor do leite. E todos amam você.
SARAH MILLER: (Envaidecida) Pare. Sentem-se
(Pocahontas impede que sua trupe se dirija à mesa)
POCAHONTAS: Espere.
SARAH MILLER: O quê?
POCAHONTAS: Não podemos comer com vocês.
(A atriz se vira para a diretora e pergunta.)
SARAH MILLER: Becky, o que está acontecendo?
BECKY: (Sussurrando): Vandinha, o que você está fazendo???
POCAHONTAS: Vocês tomaram nossa terra. Agora meu povo será forçado a viver em reservas indígenas. Seu povo vestirá malhas de lã e beberá uísque. Venderemos braceletes em beira de estrada. Vocês jogarão golfe e comerão em bons pratos. Meu povo sofrerá a degradação. Seu povo conduzirá carros. Os deuses da minha tribo disseram para não confiarmos nos peregrinos. Sobretudo, em Sarah Miller. Por todas essas razões eu decidi escalpelar você e queimar seu vilarejo.
Pois bem. Hoje eu vou dar uma de Vandinha e vou queimar o vilarejo do Grande Mito Sobre o Oito de Março.
A história conhecida é de que, em 1857, o proprietário de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque queimou-a completamente, matando aproximadamente 200 operárias que faziam uma paralização. Eu já tive, inclusive, um professor marxista que discursou sobre como esse episódio era uma prova de que os trabalhadores são peças descartáveis perante ao Capital. Sem entrar no debate sobre o descarte de trabalhadores ou não, meu problema é que mesmo marxistas ainda acreditam nesse conto de fadas surgido no ano de 1966 no Leste Europeu.
Agora vamos jogar o óleo nas casas do vilarejo e nos perguntar: se houve de fato um episódio terrível assim na História e esse é o motivo para comemorarmos o Dia Internacional da Mulher no dia 8 de Março, por que a Federação dos Clubes de Mulheres Socialistas de Chicago marca a primeira comemoração do Dia da Mulher que se tem notícia para 3 de maio de 1908? O 8/3 já não seria uma data emblemática, especialmente para mulheres socialistas norte-americanas, se o massacre tivesse ocorrido? Por que todas as outras conferências de sindicalistas e socialistas em um geral ignoram a data de 8 de Março na segunda metade do século XIX e na primeira década do século XX?
Se o massacre houvesse ocorrido, por que não há um único texto de um único jornal socialista da época mencionando-o? Por que não há um único texto criticando a crueldade do tal dono da fábrica? Por que não fazemos ideia de quem era esse dono e qual era a fábrica?
Porque o massacre da fábrica nunca existiu.
As mulheres da II Internacional Comunista deliberaram na primeira década do século XX que todos os partidos filiados à Internacional escolheriam datas para exigir direitos às mulheres, especialmente o direito ao voto. Essas datas costumavam ser em março por ser perto, mas não tão perto, do 1º de Maio, Dia dos Trabalhadores. Era um dia para paralisações, greves, protestos, marchas e piquetes. Um dia de lutas.
A primeira menção à data de 8 de Março com qualquer relação ao Dia da Mulher foi em 1914, na Alemanha, sem nenhum motivo específico. Assim como todas as outras marcações da época (exemplos: 9 de março na França, 19 de março nos Estados Unidos, tentativa de comemoração no começo de março na Rússia – todas as organizadoras foram presas pelo czarismo). 
Mas foi em 1917 que o 8 de Março ganhou qualquer significação. No ano anterior, as lideranças femininas do Partido Bolchevique foram presas pela repressão czarista ao tentar marcar o Dia da Mulher Socialista para essa data. Em 1917, as russas socialistas utilizaram o mesmo dia para marcar tanto a deliberação internacional quanto lembrar suas companheiras presas e (acendendo o fósforo e jogando-o no vilarejo), contrariando a decisão do Partido Bolchevique de não realizar qualquer manifestação, irrompeu uma greve espontânea das tecelãs e costureiras de São Petersburgo. Elas foram às ruas exigindo o fim da fome e da guerra e sua manifestação foi o estopim da primeira fase da Revolução Russa.
Sobre esse 8 de Março há textos, notícias, artigos. A cartilha do Núcleo Piratininga de Comunicação destaca, principalmente, os de Alexandra Kollontai e León Trotsky. Só então, em 1921, a Conferência das Mulheres Comunistas adotou o dia 8 de Março como data unificada do Dia Internacional das Operárias.
Com a Segunda Guerra Mundial, o dia Internacional da Mulher foi abandonado tanto na URSS quanto no resto do mundo e, com o endurecimento da linha política soviética, abandonado de vez mesmo após o fim da Guerra.
Só em 1966, na Alemanha Oriental, volta-se a falar do Dia Internacional da Mulher. Por motivos que não ficam muito claros, a data de 8 de Março ficou marcada na memória coletiva, assim como sua relação com operárias na indústria têxtil, mas a verdadeira história perdeu-se (não acho que se lesse muito Trostky ou Kollontai – ambos banidos pelo stalinismo – na União Soviética de 1966) e um mito foi criado para preencher seu vazio.
Convenhamos que é mais conveniente aos defensores do capitalismo aderirem ao mito de 1966, já que o individualismo presente em nossa sociedade pode alegar que o tal fictício industrial era “uma pessoa ruim” ou algo do gênero do que admitir que a data propagada pelo mundo todo chamava-se Dia Internacional da Mulher Socialista e que este dia surgiu com a chispa nos olhos de destruir o sistema que nos oprime. Lembrar das mulheres que iniciaram a Revolução Russa é lembrar do papel de todas as mulheres e do feminismo marxista em todo e qualquer movimento que se pretenda revolucionário no mundo. Hoje e sempre.


Fonte: "O Dia da Mulher Nasceu das Mulheres Socialistas". Núcleo Piratininga de Comunicação. (http://www.piratininga.org.br/memoria/mulheres-vito.html)
Vale a pena ler também: As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, GONZÁLEZ, Ana Isabel Alvarez. (https://www.expressaopopular.com.br/livros/expressao-popular/origens-e-comemoracao-do-dia-internacional-das-mulheres)

18 de jan. de 2013

O mito (não) esclarecido


Faz mais de 600 anos que Aurora dorme. O mato cresceu, seu mundo mudou, morreram todas as fadas e, sem explicação, permanece na Europa, intocada, uma jovem adormecida. Se havia um príncipe com o poder de quebrar a maldição, morreu no caminho.
Hoje, Aurora encontra-se despida de suas roupas e joias, removida de seu castelo e cama com dossel. Hoje Aurora é um experimento científico. Um algo que não vive e não morre, não desabrocha e nem apodrece, que precisa ser espetado, controlado, explicado. Mas a Ciência não penetra o mito e, mesmo que lhe raspem os cachos dourados para investigar seu cérebro, eles invariavelmente tornam a crescer. Aurora sonha, foi provado por uma máquina. Mas com o quê? Com quem?
Por centenas de anos, seu leito foi ponto turístico e pessoas de todo o mundo pagavam para vê-la dormir. Homens de todos os países colaram os lábios nos seus em um misto de adoração e sacrilégio. Mas Aurora dorme e não há lógica nem ciência que o explique. Ela é mais real do que postulados e teses.
Não há nada de especial em seu corpo e partes que lhe são desmembradas (como seu sangue, periodicamente coletado para exames) perecem como tudo. No entanto, o mito permanece intocado e Aurora dorme.
Sua enfermeira a ama e, com carinho, penteia seus cabelos e se pergunta quão bonito seria seu sorriso.

13/1/13

16 de jan. de 2013

Amour, je t'aime tant



Hoje me despeço de um dos homens mais corajosos que já conheci. Meu avô me ensinou a não ter medo dos opressores, a nunca deixar de lutar pelo que é justo e sempre amar as pessoas e a vida.
Foi uma das pessoas que mais me inspirou a ser quem sou hoje, com seu imenso bom humor, sua inteligência aguçada e seu gosto pelo Flamengo e por samba.
Nascido em 2 de março de 1929, lutou contra a ditadura civil-militar e, depois, para que seus crimes jamais fossem esquecidos ou perdoados, lutou para que a história dos povos da América Latina fosse contada sem farsas e, nas últimas semanas, lutou com a Morte. Dessa vez, ela venceu e tirou de nós um grande professor, um historiador meticuloso, meu avô.
É como se todas as forças tivessem sido arrancadas de mim e tudo o que consigo fazer é escrever, chorar e escutar jazz. A vida segue e eu sei que terei de seguir "apesar de", como sempre. Só não agora.

Até o infinito, Companheiro Aquino.

7 de jan. de 2013

Por que pessoas que não têm um gênero de preferência em seus relacionamentos amorosos/sexuais (como bissexuais e pansexuais) assustam tanto xs homofóbicxs? Porque, se existe a possibilidade de gostar de várias coisas ao mesmo tempo, a linha de diferenciação entre "nós" e "os outros" se mostra inexistente. E alguém pode fazer várias coisas, todas as coisas, coisas imprevistas, imprevisíveis. Porque significa que o desejo foge a normas e regulamentos vários.
Porque significa que elxs também podem se atrair por pessoas diferentes do que gostariam.

3 de jan. de 2013

Um dia sairemos às ruas. E haverá cheiro de chuva no ar. Haverá um frio na boca do estômago. Uma ansiedade do desconhecido.
Nós não estaremos com fome. Nem com frio. Nem com medo. Nós não "teremos" de trabalhar para viver e viver para trabalhar. Nós não teremos que ser protegidxs de ninguém mais.
E o mantra, agridoce em nossas bocas, virá como um sopro de vida: "Livres enfim."

10 de jul. de 2012

I Encontro de Mulheres da UFRJ - Observações

                Nas últimas duas semanas, participei da construção do I Encontro de Mulheres da UFRJ. Éramos mulheres de umas três ou quatro correntes políticas e com o desejo de nos auto organizarmos, termos em nossas mãos as rédeas da nossa luta. Promovemos quatro mesas com diferentes palestrantes e uma rodada de Grupos de Trabalho para verbalizarmos o acúmulo dos debates e o que queríamos de diferente em nossa universidade e em nosso mundo.
                Sonhei um Encontro com a presença de dezenas de estudantes com dezenas de visões de mundo. Sonhei um Encontro com falas incríveis das palestrantes e problematizações surpreendentes das participantes. Sonhei um Encontro que contasse com a presença de gente que não está no Movimento Estudantil, que não está dentro dessa lógica e que não está familiarizada com o debate feminista.
                Antes de falar do Encontro em si, falo um pouco de mim: eu não tenho muito acúmulo teórico sobre o feminismo. Nem sobre que mundo eu quero no futuro (que vocalizo dizendo “comunista” e tendo a certeza de quão incipientes são as bases dessa afirmação). Ainda tenho muito a ler e muito mais a debater. Mas eu estou (sempre) pronta para um bom debate.  (Sempre) pronta para perguntas que não tinha feito antes e respostas de quem já leu e ouviu mais do que eu, características que cultivo voluntariamente e que prezo em outros também.
                Infelizmente, nem todas as (nem tantas) pessoas que se dispuseram a participar do Encontro gostavam de ouvir discordâncias. A maioria esmagadora de participantes era de rostos que conheço desse gueto que chamamos Movimento Estudantil. E a maioria já foi para lá com uma visão pré-concebida de mundo, querendo apenas fazer com que outros mais a absorvessem também. E as palestrantes? Algumas tiveram falas boas, algumas tiveram problematizações interessantes, muitas ficaram no raso do raso, reproduzindo lugares comuns e atestando desconhecimento (do mundo real mesmo). Cheguei a ouvir na fala de uma delas um causo clássico, de uma vez em que estava se depilando no salão, sentindo muita dor com a cera, e a depiladora disse: “E ainda tem gente que acha que as mulheres são o sexo frágil”. É sério mesmo? Vamos passar horas da nossa vida nos reunindo, organizando um evento, dizendo para as pessoas que será bom, que será diferente, para ter uma mulher que vai lá crente que está abafando dizer uma coisa que eu leria na Nova? Que reproduz lugares-comuns machistas desse nível e ainda quer aplausos no fim?
                Para além disso, me sinto desconfortável em ser a pessoa que fala o tempo todo em Creche Universitária, não é meu assunto favorito. Mas é um assunto que vejo que minhas companheiras e meus companheiros não fazem a menor ideia do que estão tratando, é um dos assuntos que pode dar muito errado se mal conduzido e um assunto que tenho como dar uma mínima contribuição teórica graças à minha mãe. E tenho que ficar batendo sempre nas mesmas teclas quando falamos nesse assunto (assim como sempre tenho que fazer a questão de ordem sobre minha alergia a tabaco em todo e qualquer espaço do M.E. – mesmo que os presentes sejam sempre as mesmas pessoas). As pessoas não se convencem de que quando pedimos que a creche universitária da UFRJ apenas para as mulheres da UFRJ estamos:
a) Reproduzindo a maldita lógica machista de que criança é trabalho de mulher,
b) Esquecendo de que, num geral, quando um homem da UFRJ tem um filho e não tem creche para deixá-lo, não vai deixar de estudar. Vai largar o filho com alguma mulher.

                E ainda decidimos falar sobre o machismo nas calouradas. Beleza, falamos o óbvio do óbvio. Como se ninguém soubesse que os nossos trotes são machistas. O que faltou falar foi de outras tantas práticas machistas da comunidade universitária e da nossa sociedade em geral, faltou (muito) falar foi sobre saúde reprodutiva, faltou (muito) falar de limitação de papeis de gênero e como isso afeta todxs da nossa sociedade.
                Ainda bato com força na tecla que, quando decidimos, em um encontro feminista, separar as questões ligadas à heteronormatividade de nossa sociedade das que mostram outras cores do arco-íris erótico humano, reproduzimos a velha lógica de “eles” e “nós”. Quando não olhamos para nossa sociedade como uma sociedade que valoriza características ligadas a um único modelo de homem e que exclui todo o resto, quando não vemos que “o resto” é um só (com múltiplas nuances de especificidades), temos uma visão fragmentada e parcial da realidade. E não chegamos muito longe (e nos mantemos na lógica opressora).
                Há mais impressões, que não tenho tão concretamente formuladas na minha cabeça. Coisas boas, certamente, que aconteceram. Falas que me intrigaram, conversas de corredor que me animaram. Mas, num geral, ficou um gosto amargo na boca e o sentimento de que não culpo quem decidiu não participar. Eu mesma não sei muito bem do que participei.

24 de jun. de 2012

Luísa


        Os desníveis da rua mal calçada já foram um desafio aos pés outrora pequenos de Luísa. Nem tanto tempo se passara quando não bastava apenas dar-lhe a mão e caminhar ao seu lado na rua. Nem tanto tempo se passara quando cada segundo de atenção era necessário, quando cada deslize significava um tombo, um ferimento e uma crise de choro.
          Luísa deixava progressivamente de ser uma coisinha frágil para tornar-se independente, voluntariosa. “Chozinha”, dizia ela, recusando qualquer ajuda nos projetos que já se considerava apta a realizar. Era difícil aceitar que ela quase não quisesse mais colo, não quisesse mais ter os cabelos escovados. Por outro lado, Luísa ainda adorava mimos como deixar suas mãozinhas servirem de moldes para desenhos que acabavam ficando invariavelmente tortos, já que ficar quieta não era uma de suas qualidades. Adorava ouvir histórias (embora gostasse cada vez mais de contá-las), adorava dançar.
     E Titia fazia tudo; dançava, contava histórias, desenhava tudo o que ela pedisse (“Gatinho”, “Bolinha”, “Cobrinha”, “Cacalé”) e deixava-a agora pentear os cabelos de Titia. Luísa aprendeu rápido que cuidar é quase tão gostoso quanto ser cuidada.
     Ela vinha mais ou menos uma vez por mês à casa de Vovô e Vovó, onde todos se revezavam em olhá-la, paparicá-la, apertar suas bochechas e enrolar seus cachinhos. E ela ria, ria, deixando suas covinhas bem à mostra quando Titio fazia cócegas nela, levava-a nos ombros ou fazia macaquices. Luísa, aquele toco de gente espertinho, fazia Vovô de gato e sapato nas suas brincadeiras, derrubando todas as casinhas de bloquinhos e amassando involuntariamente as gaivotas de papel ao tentar lançá-las também. De Vovó ela queria sempre o maior chamego, a maior atenção. Queria comer com Vovó, se vestir com Vovó, desenhar com Vovó. E Titia dançava, Titia desenhava, Titia dava banho em Luísa, Titia inventava histórias.
      Luísa também se revezava em dar atenção àqueles adultos carentes, que sempre queriam os beijos, os risos e os mimos dela. Às vezes, existia apenas Titio e ela ficava manhosa o dia todo, jogando charme, querendo colo, querendo tudo. Às vezes, chamava por Vovó, tinha ciúmes de Vovô. E havia dias em que Titia era contemplada com o centro de suas atenções. Nesses dias, Luísa queria passear, queria usar o mesmo pente que Titia, queria usar os mesmos tic-tacs no cabelo, queria correr adoidada pela casa ou dançar as coreografias que as duas inventavam para as músicas favoritas de Luísa. “A do pintinho”, “A do gatinho”, “A do jacaré” (ou “cacalé”, na linguagem particular da mocinha)... E elas riam, falavam, calavam. Titia gostava de ficar longos momentos em silêncio, olhando os cachinhos, olhando a pele morena, olhando os olhos de cílios tão grandes, olhando a boquinha de dentes tão pequenos. Titia gostava dos beijos molhados, dos banhos quentes, dos lanches demorados. Gostava de levá-la até a Galeria para ver os peixinhos, quando Luísa dava gritinhos de prazer vendo-os nadar em círculos.
       Titia gostava mesmo de ver Luísa vendo o mundo, de pegar emprestado um pouco da magia que o mundo tinha para sua pequenininha, de rir sozinha na rua, lembrando o fim-de-semana que passaram juntas. Titia sempre achou que o mundo não teria graça nenhuma se as crianças não existissem, que felicidade completa é se espantar com tudo todo dia, e Luísa trazia tudo isso, em forma de cheirinho de bebê, farelos de biscoito maisena e covinhas.

12 de mai. de 2012

Algumas ideias sobre a maternidade por uma não-praticante

Ser mãe não deveria ser uma obrigação, um pré-requisito de “ser mulher”; não deveria ser maior ou menor do que ser pai e nem necessariamente distinto. Mãe é conceito múltiplo existente em múltiplas sociedades, nas mais diversas formas. Mãe não devia ser o único sonho digno que todas as mulheres devem almejar, não devia ser um sonho “mais importante” do que ser bombeira, atleta, artesã ou vendedora. Mais importante do que gostar de bichos, de acampar ou de sexo. Mãe devia ser um sonho e, como sonho, fruto de preparativos e esforço. Nenhuma grávida devia passar pelo horror de ter como única opção parir, nutrir, educar e amar um feto indesejado ou ser punida por tirá-lo ou deixá-lo em um abrigo para alguém que queira ser mãe/pai. Nenhuma mulher deveria ter que ser mãe sozinha. Nenhum Estado, nenhuma sociedade deveria nos deixar desamparadas. Nenhum parto deveria ser um pesadelo, nenhum médico devia destratar uma parturiente, sua/seu acompanhante (se houver) e o bebê. Nenhuma cesárea deveria ser imposta. Mães devem lembrar que também são mulheres, amigas, amantes, profissionais. Mães podem sê-lo desde a fecundação do óvulo; podem ser desde a primeira vez que viram aquela criança; podem decidir assumir o papel quando de repente chamadas assim.
Ser mãe devia ser uma escolha dos sentimentos entre uma mulher e seu/sua filhx. Para o resto de suas vidas.

3 de abr. de 2012

Sou carne da carne que vocês feriram, sou sangue do sangue que vocês derramaram


Pena que nessa foto não dá para ver quão pichada estava a camisa e as mãos pintadas de vermelho sangue...

No rosto e no pescoço são todos nomes de meus familiares que foram torturados/perseguidos. Estão escritos: Aquino (avô), Cid (Benjamin, primo), Cesar (Benjamin, primo), Ruth (Cascón, tia-avó) e Iramaia (Benjamin, tia-avó). Nas costas tem ainda Cascón (tio-avô) e, na blusa, tem Regilena (minha vódrasta), Jaime e Maria Lúcia (Petit, que não são parentes, mas são como se fossem).

Sendo que eu descobri que esqueci de nomes.  Meu bisavô, o jornalista Pedro da Motta Lima também foi perseguido (pelo Vargas e pelos milicos, por sinal) e morreu no exílio. Uma das minhas primas, a Marta foi presa também. Meu avô postiço, pai da minha madrinha, Laci Felício também foi preso... (vou acrescentando mais nomes e corrigindo erros de memória nesse post conforme meus familiares forem lembrando deles)

22 de mar. de 2012

Gilberto corria solto com os primos quanto tropeçou e um vergalhão enferrujado lhe atravessou a perna. Nenhum deles nunca tinha ouvido falar de tétano.
Morreu numa cama de hospital aos noventa anos. Pneumonia.

20 de mar. de 2012

Bárbara

Bárbara era alta demais, larga demais e peluda demais para ser considerada bonita. Bárbara não era especial, nem criativa, nem boa em matemática. Era filha única de pais que trabalhavam o dia inteiro e cresceu em silêncio ouvindo os diálogos da T.V. que, como todos os diálogos ao seu redor, não lhe perguntavam nada. O cabelo de Bárbara era crespo demais, cheio demais e começou a ser alisado assim que seus seios começaram a surgir. Ninguém perguntou se ela gostava de seu cabelo, de seus pelos, de sua altura, de seu peso.
Bárbara comia cheetos e via desenhos, angustiada demais para encarar o dever de matemática, história ou português. Angústia era uma palavra difícil que ela não conhecia e que a acompanhou a vida toda, incompreendida como Bárbara.
A escola chutava ela ano após ano, exibindo-a nas estatísticas de aprovação e frequência. Bárbara copiava a matéria furiosamente para não ter que entender o que dizia a professora ou ouvir os colegas que lhe machucavam. Ela não odiava ninguém, só chegava em casa e corria à televisão para aplacar o silêncio.
Às vezes ia à praia quando os pais a levavam e ficava sentada na areia querendo voltar para os salgadinhos e a T.V.
Foi na praia que sentiu. Podia ver que, longe, no horizonte, encontraria os desejos, as perguntas e o aconchego que jamais tinham chegado a ela. Lembrando as aulas de natação que tinha frequentado há mais de dez anos, entrou na água sem perguntar a ninguém e nadou até sumir.

8 de mar. de 2012

Oito de Março de Dois Mil e Doze

Como eu disse para as minhas calouras e os meus calouros hoje, o Dia Internacional de Lutas da Mulher não é para lembrar como nós somos lindas, maternais, dóceis e gentis. Não somos heroínas de ninguém, não somos alicerce de ninguém. Somos seres humanos completos, nossas próprias heroínas, nos movemos com nossas próprias forças e sangramos nosso próprio sangue.
Fazer piadinha com o 8 de Março não é engraçado, não é original e não é revolucionário. É infantil, bobo e reprodutor de tudo o que todos os programas da grande mídia passam o tempo todo.
O Dia Internacional de Lutas da Mulher é de luta mesmo. É a data em que começou a Revolução Russa e que só começou graças a uma greve de operárias tecelãs. Elas puxaram a Revolução quando o Partido Bolchevique achava que ainda não era a hora, o resto só as acompanhou.
No Dia Internacional de Lutas da Mulher, ninguém deixa de ser estuprada, violada, morta, agredida, assaltada, humilhada só porque é o "nosso dia". Só recebo com alegria os "parabéns" por esse dia do meu avô (e de poucos outros), porque ele me parabeniza por ser uma companheira vibrante de luta e diz que ama me ver no front de batalha (ou seja, fazendo alguma passeata por aí). Porque ele não me parabeniza pelas supostas conquistas do "sexo belo" ou pela minha intensa fertilidade que traz novos homens ao mundo, ele me parabeniza por minhas lutas e por lembrar daquelas que lutaram antes de mim.
No Dia Internacional de Lutas da Mulher, tenho nojinho das campanhas tortas e das mensagens equivocadas que vejo por aí, tenho nojinho daqueles que enfatizam apenas o que já é enfatizado todo santo dia, tenho nojinho dos homens que até no nosso mísero dia querem monopolizar a atenção.
Mas se tem uma coisa que me deixou muito feliz hoje foram minhas calouras e meus calouros. Tudo bem, a programação ficou toda confusa e atarantada, foi um surto meu e do C.A. achar que as calouras e os calouros iam aderir em massa a assistir dois filmes de militância feminista no mesmo dia e o filme sobre a Pagú foi uma decepção. Mas o debate de manhã foi ótimo, com posicionamentos muito interessantes (vindos de calouras e calouros), ninguém apelou para a religião... Calourinhas e calourinhos que estiverem lendo isso: estou encantada com vocês.
E fiquei encantada com "Revolução em Dagenham". Muito bom, muito bem filmado, com personagens apaixonantes e o foco principal todo na greve e na militância. Isso saiu como eu tinha gestado e sonhado.
Acho que esse post ficou meio esparso, um pouco confuso e atirando para vários lados. Faço essa autocrítica. Embora nem todos os posts tenham que ser excelentes (eu ia escrever "geniais", só que comecei a pensar em qual post meu considero genial e cheguei a conclusão que a resposta é "nenhum". Sou louca por achar confortador não estar na prateleira dos gênios? Mais divagações, mais divagações) e estou cansada de coerência de pensamento, de ordenação e Ordem.




Tentando finalizar com alguma coisa decente: não me parabenizem, não me louvem, não me ignorem, não me olhem de cima. Lutem comigo.