27 de mar de 2015

Em um reino tão distante quanto imaginário, uma moça muito linda bateu na porta do castelo em uma noite sem lua. Sua pele, de tão pálida, chegava a sutis transparências e era colorida por suas pequenas veias verdes e azuis. Essa moça, de cabelos da cor do fogo, disse ser princesa de outro reino ainda mais longínquo e encantou o rei, a rainha e o príncipe. A única pessoa a quem seu feitiço não alcançava era a jovem princesa.
Feitiço é a melhor palavra, visto que a jovem era uma bruxa, que seduziu a todos e tomou o reino para si. Isolou a família real no castelo, em uma ala distante, impediu-os de sair e afastou todas as pessoas das redondezas, para que não tivessem como pedir abrigo. Seu alimento era o horror, então fazia um esforço constante, correndo nua pelas salas do castelo, para que seus prisioneiros vivessem em um pesadelo. Pesadelo esse que era sempre mais intensificado na jovem princesa, que não estava nunca dopada e odiava a bruxa com todas as suas forças. Os outros acreditavam-na ser a cura para aqueles demônios que tomavam o castelo.
Certa noite, um vento poderoso abriu uma janela quando o príncipe passava por perto. A bruxa saíra para gerir o reino. Foi quando ele se deu conta de que havia se casado com a bruxa e que ela tentava com fúria e constância ter um filho seu. Ficou tonto ao respirar um ar que não fosse cheio da pestilência e mais tonto ainda ao perceber a magreza de seu corpo e a imundice de seu castelo.
O vento fora conjurado pela princesa, sua irmã, que possuía também o domínio do sobrenatural. Ela gastara suas últimas semanas costurando em segredo uma corda feita com seus lindos vestidos e, agora, suas poucas energias pedindo ao vento que abrisse aquela janela e a um unicórnio que se aventurasse em terras tão perigosas quanto agora era o castelo para tirá-los dali e poderem enfrentar a bruxa de igual para igual.
O príncipe tomou a irmã nos braços e desceu a torre com a corda improvisada. O vento, apaixonado pela princesa pequena, frágil e incrivelmente poderosa, os amparou em sua fuga e chegaram ao chão milagrosamente em segurança.
Correram a noite inteira montados no unicórnio, a princesa teve de convencer ao irmão que só poderiam descansar de dia, já que a bruxa os caçaria quando sol não pudesse feri-la e nem aos demônios que criava.
Eu era o príncipe, a bruxa e a princesa. E acordei sem saber o que deles foi feito.

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