24 de jun. de 2012

Luísa


        Os desníveis da rua mal calçada já foram um desafio aos pés outrora pequenos de Luísa. Nem tanto tempo se passara quando não bastava apenas dar-lhe a mão e caminhar ao seu lado na rua. Nem tanto tempo se passara quando cada segundo de atenção era necessário, quando cada deslize significava um tombo, um ferimento e uma crise de choro.
          Luísa deixava progressivamente de ser uma coisinha frágil para tornar-se independente, voluntariosa. “Chozinha”, dizia ela, recusando qualquer ajuda nos projetos que já se considerava apta a realizar. Era difícil aceitar que ela quase não quisesse mais colo, não quisesse mais ter os cabelos escovados. Por outro lado, Luísa ainda adorava mimos como deixar suas mãozinhas servirem de moldes para desenhos que acabavam ficando invariavelmente tortos, já que ficar quieta não era uma de suas qualidades. Adorava ouvir histórias (embora gostasse cada vez mais de contá-las), adorava dançar.
     E Titia fazia tudo; dançava, contava histórias, desenhava tudo o que ela pedisse (“Gatinho”, “Bolinha”, “Cobrinha”, “Cacalé”) e deixava-a agora pentear os cabelos de Titia. Luísa aprendeu rápido que cuidar é quase tão gostoso quanto ser cuidada.
     Ela vinha mais ou menos uma vez por mês à casa de Vovô e Vovó, onde todos se revezavam em olhá-la, paparicá-la, apertar suas bochechas e enrolar seus cachinhos. E ela ria, ria, deixando suas covinhas bem à mostra quando Titio fazia cócegas nela, levava-a nos ombros ou fazia macaquices. Luísa, aquele toco de gente espertinho, fazia Vovô de gato e sapato nas suas brincadeiras, derrubando todas as casinhas de bloquinhos e amassando involuntariamente as gaivotas de papel ao tentar lançá-las também. De Vovó ela queria sempre o maior chamego, a maior atenção. Queria comer com Vovó, se vestir com Vovó, desenhar com Vovó. E Titia dançava, Titia desenhava, Titia dava banho em Luísa, Titia inventava histórias.
      Luísa também se revezava em dar atenção àqueles adultos carentes, que sempre queriam os beijos, os risos e os mimos dela. Às vezes, existia apenas Titio e ela ficava manhosa o dia todo, jogando charme, querendo colo, querendo tudo. Às vezes, chamava por Vovó, tinha ciúmes de Vovô. E havia dias em que Titia era contemplada com o centro de suas atenções. Nesses dias, Luísa queria passear, queria usar o mesmo pente que Titia, queria usar os mesmos tic-tacs no cabelo, queria correr adoidada pela casa ou dançar as coreografias que as duas inventavam para as músicas favoritas de Luísa. “A do pintinho”, “A do gatinho”, “A do jacaré” (ou “cacalé”, na linguagem particular da mocinha)... E elas riam, falavam, calavam. Titia gostava de ficar longos momentos em silêncio, olhando os cachinhos, olhando a pele morena, olhando os olhos de cílios tão grandes, olhando a boquinha de dentes tão pequenos. Titia gostava dos beijos molhados, dos banhos quentes, dos lanches demorados. Gostava de levá-la até a Galeria para ver os peixinhos, quando Luísa dava gritinhos de prazer vendo-os nadar em círculos.
       Titia gostava mesmo de ver Luísa vendo o mundo, de pegar emprestado um pouco da magia que o mundo tinha para sua pequenininha, de rir sozinha na rua, lembrando o fim-de-semana que passaram juntas. Titia sempre achou que o mundo não teria graça nenhuma se as crianças não existissem, que felicidade completa é se espantar com tudo todo dia, e Luísa trazia tudo isso, em forma de cheirinho de bebê, farelos de biscoito maisena e covinhas.

12 de mai. de 2012

Algumas ideias sobre a maternidade por uma não-praticante

Ser mãe não deveria ser uma obrigação, um pré-requisito de “ser mulher”; não deveria ser maior ou menor do que ser pai e nem necessariamente distinto. Mãe é conceito múltiplo existente em múltiplas sociedades, nas mais diversas formas. Mãe não devia ser o único sonho digno que todas as mulheres devem almejar, não devia ser um sonho “mais importante” do que ser bombeira, atleta, artesã ou vendedora. Mais importante do que gostar de bichos, de acampar ou de sexo. Mãe devia ser um sonho e, como sonho, fruto de preparativos e esforço. Nenhuma grávida devia passar pelo horror de ter como única opção parir, nutrir, educar e amar um feto indesejado ou ser punida por tirá-lo ou deixá-lo em um abrigo para alguém que queira ser mãe/pai. Nenhuma mulher deveria ter que ser mãe sozinha. Nenhum Estado, nenhuma sociedade deveria nos deixar desamparadas. Nenhum parto deveria ser um pesadelo, nenhum médico devia destratar uma parturiente, sua/seu acompanhante (se houver) e o bebê. Nenhuma cesárea deveria ser imposta. Mães devem lembrar que também são mulheres, amigas, amantes, profissionais. Mães podem sê-lo desde a fecundação do óvulo; podem ser desde a primeira vez que viram aquela criança; podem decidir assumir o papel quando de repente chamadas assim.
Ser mãe devia ser uma escolha dos sentimentos entre uma mulher e seu/sua filhx. Para o resto de suas vidas.

3 de abr. de 2012

Sou carne da carne que vocês feriram, sou sangue do sangue que vocês derramaram


Pena que nessa foto não dá para ver quão pichada estava a camisa e as mãos pintadas de vermelho sangue...

No rosto e no pescoço são todos nomes de meus familiares que foram torturados/perseguidos. Estão escritos: Aquino (avô), Cid (Benjamin, primo), Cesar (Benjamin, primo), Ruth (Cascón, tia-avó) e Iramaia (Benjamin, tia-avó). Nas costas tem ainda Cascón (tio-avô) e, na blusa, tem Regilena (minha vódrasta), Jaime e Maria Lúcia (Petit, que não são parentes, mas são como se fossem).

Sendo que eu descobri que esqueci de nomes.  Meu bisavô, o jornalista Pedro da Motta Lima também foi perseguido (pelo Vargas e pelos milicos, por sinal) e morreu no exílio. Uma das minhas primas, a Marta foi presa também. Meu avô postiço, pai da minha madrinha, Laci Felício também foi preso... (vou acrescentando mais nomes e corrigindo erros de memória nesse post conforme meus familiares forem lembrando deles)

22 de mar. de 2012

Gilberto corria solto com os primos quanto tropeçou e um vergalhão enferrujado lhe atravessou a perna. Nenhum deles nunca tinha ouvido falar de tétano.
Morreu numa cama de hospital aos noventa anos. Pneumonia.

20 de mar. de 2012

Bárbara

Bárbara era alta demais, larga demais e peluda demais para ser considerada bonita. Bárbara não era especial, nem criativa, nem boa em matemática. Era filha única de pais que trabalhavam o dia inteiro e cresceu em silêncio ouvindo os diálogos da T.V. que, como todos os diálogos ao seu redor, não lhe perguntavam nada. O cabelo de Bárbara era crespo demais, cheio demais e começou a ser alisado assim que seus seios começaram a surgir. Ninguém perguntou se ela gostava de seu cabelo, de seus pelos, de sua altura, de seu peso.
Bárbara comia cheetos e via desenhos, angustiada demais para encarar o dever de matemática, história ou português. Angústia era uma palavra difícil que ela não conhecia e que a acompanhou a vida toda, incompreendida como Bárbara.
A escola chutava ela ano após ano, exibindo-a nas estatísticas de aprovação e frequência. Bárbara copiava a matéria furiosamente para não ter que entender o que dizia a professora ou ouvir os colegas que lhe machucavam. Ela não odiava ninguém, só chegava em casa e corria à televisão para aplacar o silêncio.
Às vezes ia à praia quando os pais a levavam e ficava sentada na areia querendo voltar para os salgadinhos e a T.V.
Foi na praia que sentiu. Podia ver que, longe, no horizonte, encontraria os desejos, as perguntas e o aconchego que jamais tinham chegado a ela. Lembrando as aulas de natação que tinha frequentado há mais de dez anos, entrou na água sem perguntar a ninguém e nadou até sumir.

8 de mar. de 2012

Oito de Março de Dois Mil e Doze

Como eu disse para as minhas calouras e os meus calouros hoje, o Dia Internacional de Lutas da Mulher não é para lembrar como nós somos lindas, maternais, dóceis e gentis. Não somos heroínas de ninguém, não somos alicerce de ninguém. Somos seres humanos completos, nossas próprias heroínas, nos movemos com nossas próprias forças e sangramos nosso próprio sangue.
Fazer piadinha com o 8 de Março não é engraçado, não é original e não é revolucionário. É infantil, bobo e reprodutor de tudo o que todos os programas da grande mídia passam o tempo todo.
O Dia Internacional de Lutas da Mulher é de luta mesmo. É a data em que começou a Revolução Russa e que só começou graças a uma greve de operárias tecelãs. Elas puxaram a Revolução quando o Partido Bolchevique achava que ainda não era a hora, o resto só as acompanhou.
No Dia Internacional de Lutas da Mulher, ninguém deixa de ser estuprada, violada, morta, agredida, assaltada, humilhada só porque é o "nosso dia". Só recebo com alegria os "parabéns" por esse dia do meu avô (e de poucos outros), porque ele me parabeniza por ser uma companheira vibrante de luta e diz que ama me ver no front de batalha (ou seja, fazendo alguma passeata por aí). Porque ele não me parabeniza pelas supostas conquistas do "sexo belo" ou pela minha intensa fertilidade que traz novos homens ao mundo, ele me parabeniza por minhas lutas e por lembrar daquelas que lutaram antes de mim.
No Dia Internacional de Lutas da Mulher, tenho nojinho das campanhas tortas e das mensagens equivocadas que vejo por aí, tenho nojinho daqueles que enfatizam apenas o que já é enfatizado todo santo dia, tenho nojinho dos homens que até no nosso mísero dia querem monopolizar a atenção.
Mas se tem uma coisa que me deixou muito feliz hoje foram minhas calouras e meus calouros. Tudo bem, a programação ficou toda confusa e atarantada, foi um surto meu e do C.A. achar que as calouras e os calouros iam aderir em massa a assistir dois filmes de militância feminista no mesmo dia e o filme sobre a Pagú foi uma decepção. Mas o debate de manhã foi ótimo, com posicionamentos muito interessantes (vindos de calouras e calouros), ninguém apelou para a religião... Calourinhas e calourinhos que estiverem lendo isso: estou encantada com vocês.
E fiquei encantada com "Revolução em Dagenham". Muito bom, muito bem filmado, com personagens apaixonantes e o foco principal todo na greve e na militância. Isso saiu como eu tinha gestado e sonhado.
Acho que esse post ficou meio esparso, um pouco confuso e atirando para vários lados. Faço essa autocrítica. Embora nem todos os posts tenham que ser excelentes (eu ia escrever "geniais", só que comecei a pensar em qual post meu considero genial e cheguei a conclusão que a resposta é "nenhum". Sou louca por achar confortador não estar na prateleira dos gênios? Mais divagações, mais divagações) e estou cansada de coerência de pensamento, de ordenação e Ordem.




Tentando finalizar com alguma coisa decente: não me parabenizem, não me louvem, não me ignorem, não me olhem de cima. Lutem comigo.