5 de abr. de 2013

Através

Ao olhar melhor o rosto da mulher à sua frente, reparou que a forte impressão que ela lhe causava era devida ao vermelho de seus olhos irritados e o roxo das olheiras fundas. "Política", ela sussurraria em resposta à pergunta não formulada. Ela tinha cara de ontem. Cara daquelas pessoas que fazem um trabalho tão alienante quanto os outros, com a desculpa de tentar-se desaliená-los todos, pensando nas metas vermelhas como os olhos que cingiam o horizonte. "Política", ela resmungaria, frustrada e exausta, tentando lidar com a realidade limitada que encontrava no mundo real.
E, no fundo, "Política" também queria dizer humildade. Reformavam formas tão velhas quanto tudo porque a ruptura total sem ser totalmente coletiva nada mai era do que esquizofrenia solitária. Então varava noites e sonhava...
"Política" era abrir mão de saúde e de status. E pra que mesmo?
Vermelho. Horizonte vermelho como os olhos que a encaravam no espelho.

Decidir

Os sons que te afligem rodopiam nas bocas, dançam no ar e chicoteiam tua pele. Há de novo em ti um medo de futuro, um descompasso de caminho. Pensaras tu que estudarias, irias ao trabalho, tuas pernas enlaçariam pernas e teus braços embalariam uma criança. Mas há sede de justiça em tua garganta e um frêmito de esperança nos olhos. Há nós antes de ti. E os laços atados por teus dedos no peito que é teu indicam outros tipos de nós. Laços atados que amarram medos. Talvez devesses liberá-los para sempre. Talvez devesses deles fazer origami como querias fazer com teus amores secos.
Uma borboleta seria bom. Ela voaria longe e viveria apenas três dias. Os dedos tremem, brincando com os laços. A verdade é que - se é que há verdade - é que tens medo do vento e da liberdade. Tuas asas se esticaram ontem e permaneces parada junto ao abismo sem saber se voarás ou não. Tuas penas sentem o vento fresco - de chuva? - e teus pés se agarram no chão, a medo.
Voarei, sussurras. Voarei. E permaneces parada, magnetizada junto ao abismo.
Estudarias, irias ao trabalho, tuas pernas enlaçariam pernas e teus braços embalariam uma criança. Há lugar para isso no voo. Estudarás, irás ao trabalho, tuas pernas enlaçarão pernas e teus braços embalarão uma criança. Não como na Sessão da Tarde, mas nunca quiseras tons pasteis e uma dublagem ruim. Voarei.
Voarei.
Voarei.
Salto.

23 de fev. de 2013

Vamos falar de mulheres. Vamos falar de Revolução. Vamos falar do 8 de Março.

Como autora de ficção e fascinada por antropologia, estou mais do que acostumada a lidar com mitos e histórias dos mais diversos tipos. Crio-os, adoro-os. Porém, quando são perpetuados de modo a convenientemente apagar partes inconvenientes da História, devemos combatê-los.
Esses mitos são encontrados em todos os lugares e costumamos chamá-los de “História Oficial”. A História, dizia meu avô, é contada pelos vencedores. E, aos vencedores, interessa que saibamos como eles são fofos. Um dos meus exemplos favoritos de representação crítica e metalinguística da História Oficial é a cena de “A Família Addams 2” em que Vandinha atua como Pocahontas na peça de celebração do Dia de Ação de Graças. Mais precisamente, este diálogo:

SARAH MILLER  Estou feliz por ter convidado os chippewas para nossa ceia sagrada. Lembrem-se de que esses selvagens são nossos convidados. Não devemos ficar surpresos com seus estranhos costumes. Afinal, eles não têm as nossas vantagens, como boas escolas, bibliotecas cheias de livros, xampu…
POCAHONTAS: Hau! Sou Pocahontas, uma jovem chippewa.
URSO VELOZ: Eu sou Urso Veloz, noivo de Pocahontas… na peça.
POCAHONTAS: Trouxemos um presente para esta festa sagrada.
(Entra um garoto vestido de peru)
PERU: Eu sou um peru. Me mata.
SARAH MILLER: Que presente bem pensado. Vocês são tão civilizados quanto nós. Só que usamos sapatos e temos sobrenome. Bem vindos à nossa mesa, primitivos amigos.
POCAHONTAS: Obrigada, Sarah Miller. Você é a pessoa mais linda que eu já vi. Seu cabelo tem a cor do sol, sua pele, a cor do leite. E todos amam você.
SARAH MILLER: (Envaidecida) Pare. Sentem-se
(Pocahontas impede que sua trupe se dirija à mesa)
POCAHONTAS: Espere.
SARAH MILLER: O quê?
POCAHONTAS: Não podemos comer com vocês.
(A atriz se vira para a diretora e pergunta.)
SARAH MILLER: Becky, o que está acontecendo?
BECKY: (Sussurrando): Vandinha, o que você está fazendo???
POCAHONTAS: Vocês tomaram nossa terra. Agora meu povo será forçado a viver em reservas indígenas. Seu povo vestirá malhas de lã e beberá uísque. Venderemos braceletes em beira de estrada. Vocês jogarão golfe e comerão em bons pratos. Meu povo sofrerá a degradação. Seu povo conduzirá carros. Os deuses da minha tribo disseram para não confiarmos nos peregrinos. Sobretudo, em Sarah Miller. Por todas essas razões eu decidi escalpelar você e queimar seu vilarejo.
Pois bem. Hoje eu vou dar uma de Vandinha e vou queimar o vilarejo do Grande Mito Sobre o Oito de Março.
A história conhecida é de que, em 1857, o proprietário de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque queimou-a completamente, matando aproximadamente 200 operárias que faziam uma paralização. Eu já tive, inclusive, um professor marxista que discursou sobre como esse episódio era uma prova de que os trabalhadores são peças descartáveis perante ao Capital. Sem entrar no debate sobre o descarte de trabalhadores ou não, meu problema é que mesmo marxistas ainda acreditam nesse conto de fadas surgido no ano de 1966 no Leste Europeu.
Agora vamos jogar o óleo nas casas do vilarejo e nos perguntar: se houve de fato um episódio terrível assim na História e esse é o motivo para comemorarmos o Dia Internacional da Mulher no dia 8 de Março, por que a Federação dos Clubes de Mulheres Socialistas de Chicago marca a primeira comemoração do Dia da Mulher que se tem notícia para 3 de maio de 1908? O 8/3 já não seria uma data emblemática, especialmente para mulheres socialistas norte-americanas, se o massacre tivesse ocorrido? Por que todas as outras conferências de sindicalistas e socialistas em um geral ignoram a data de 8 de Março na segunda metade do século XIX e na primeira década do século XX?
Se o massacre houvesse ocorrido, por que não há um único texto de um único jornal socialista da época mencionando-o? Por que não há um único texto criticando a crueldade do tal dono da fábrica? Por que não fazemos ideia de quem era esse dono e qual era a fábrica?
Porque o massacre da fábrica nunca existiu.
As mulheres da II Internacional Comunista deliberaram na primeira década do século XX que todos os partidos filiados à Internacional escolheriam datas para exigir direitos às mulheres, especialmente o direito ao voto. Essas datas costumavam ser em março por ser perto, mas não tão perto, do 1º de Maio, Dia dos Trabalhadores. Era um dia para paralisações, greves, protestos, marchas e piquetes. Um dia de lutas.
A primeira menção à data de 8 de Março com qualquer relação ao Dia da Mulher foi em 1914, na Alemanha, sem nenhum motivo específico. Assim como todas as outras marcações da época (exemplos: 9 de março na França, 19 de março nos Estados Unidos, tentativa de comemoração no começo de março na Rússia – todas as organizadoras foram presas pelo czarismo). 
Mas foi em 1917 que o 8 de Março ganhou qualquer significação. No ano anterior, as lideranças femininas do Partido Bolchevique foram presas pela repressão czarista ao tentar marcar o Dia da Mulher Socialista para essa data. Em 1917, as russas socialistas utilizaram o mesmo dia para marcar tanto a deliberação internacional quanto lembrar suas companheiras presas e (acendendo o fósforo e jogando-o no vilarejo), contrariando a decisão do Partido Bolchevique de não realizar qualquer manifestação, irrompeu uma greve espontânea das tecelãs e costureiras de São Petersburgo. Elas foram às ruas exigindo o fim da fome e da guerra e sua manifestação foi o estopim da primeira fase da Revolução Russa.
Sobre esse 8 de Março há textos, notícias, artigos. A cartilha do Núcleo Piratininga de Comunicação destaca, principalmente, os de Alexandra Kollontai e León Trotsky. Só então, em 1921, a Conferência das Mulheres Comunistas adotou o dia 8 de Março como data unificada do Dia Internacional das Operárias.
Com a Segunda Guerra Mundial, o dia Internacional da Mulher foi abandonado tanto na URSS quanto no resto do mundo e, com o endurecimento da linha política soviética, abandonado de vez mesmo após o fim da Guerra.
Só em 1966, na Alemanha Oriental, volta-se a falar do Dia Internacional da Mulher. Por motivos que não ficam muito claros, a data de 8 de Março ficou marcada na memória coletiva, assim como sua relação com operárias na indústria têxtil, mas a verdadeira história perdeu-se (não acho que se lesse muito Trostky ou Kollontai – ambos banidos pelo stalinismo – na União Soviética de 1966) e um mito foi criado para preencher seu vazio.
Convenhamos que é mais conveniente aos defensores do capitalismo aderirem ao mito de 1966, já que o individualismo presente em nossa sociedade pode alegar que o tal fictício industrial era “uma pessoa ruim” ou algo do gênero do que admitir que a data propagada pelo mundo todo chamava-se Dia Internacional da Mulher Socialista e que este dia surgiu com a chispa nos olhos de destruir o sistema que nos oprime. Lembrar das mulheres que iniciaram a Revolução Russa é lembrar do papel de todas as mulheres e do feminismo marxista em todo e qualquer movimento que se pretenda revolucionário no mundo. Hoje e sempre.


Fonte: "O Dia da Mulher Nasceu das Mulheres Socialistas". Núcleo Piratininga de Comunicação. (http://www.piratininga.org.br/memoria/mulheres-vito.html)
Vale a pena ler também: As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, GONZÁLEZ, Ana Isabel Alvarez. (https://www.expressaopopular.com.br/livros/expressao-popular/origens-e-comemoracao-do-dia-internacional-das-mulheres)

18 de jan. de 2013

O mito (não) esclarecido


Faz mais de 600 anos que Aurora dorme. O mato cresceu, seu mundo mudou, morreram todas as fadas e, sem explicação, permanece na Europa, intocada, uma jovem adormecida. Se havia um príncipe com o poder de quebrar a maldição, morreu no caminho.
Hoje, Aurora encontra-se despida de suas roupas e joias, removida de seu castelo e cama com dossel. Hoje Aurora é um experimento científico. Um algo que não vive e não morre, não desabrocha e nem apodrece, que precisa ser espetado, controlado, explicado. Mas a Ciência não penetra o mito e, mesmo que lhe raspem os cachos dourados para investigar seu cérebro, eles invariavelmente tornam a crescer. Aurora sonha, foi provado por uma máquina. Mas com o quê? Com quem?
Por centenas de anos, seu leito foi ponto turístico e pessoas de todo o mundo pagavam para vê-la dormir. Homens de todos os países colaram os lábios nos seus em um misto de adoração e sacrilégio. Mas Aurora dorme e não há lógica nem ciência que o explique. Ela é mais real do que postulados e teses.
Não há nada de especial em seu corpo e partes que lhe são desmembradas (como seu sangue, periodicamente coletado para exames) perecem como tudo. No entanto, o mito permanece intocado e Aurora dorme.
Sua enfermeira a ama e, com carinho, penteia seus cabelos e se pergunta quão bonito seria seu sorriso.

13/1/13

16 de jan. de 2013

Amour, je t'aime tant



Hoje me despeço de um dos homens mais corajosos que já conheci. Meu avô me ensinou a não ter medo dos opressores, a nunca deixar de lutar pelo que é justo e sempre amar as pessoas e a vida.
Foi uma das pessoas que mais me inspirou a ser quem sou hoje, com seu imenso bom humor, sua inteligência aguçada e seu gosto pelo Flamengo e por samba.
Nascido em 2 de março de 1929, lutou contra a ditadura civil-militar e, depois, para que seus crimes jamais fossem esquecidos ou perdoados, lutou para que a história dos povos da América Latina fosse contada sem farsas e, nas últimas semanas, lutou com a Morte. Dessa vez, ela venceu e tirou de nós um grande professor, um historiador meticuloso, meu avô.
É como se todas as forças tivessem sido arrancadas de mim e tudo o que consigo fazer é escrever, chorar e escutar jazz. A vida segue e eu sei que terei de seguir "apesar de", como sempre. Só não agora.

Até o infinito, Companheiro Aquino.

7 de jan. de 2013

Por que pessoas que não têm um gênero de preferência em seus relacionamentos amorosos/sexuais (como bissexuais e pansexuais) assustam tanto xs homofóbicxs? Porque, se existe a possibilidade de gostar de várias coisas ao mesmo tempo, a linha de diferenciação entre "nós" e "os outros" se mostra inexistente. E alguém pode fazer várias coisas, todas as coisas, coisas imprevistas, imprevisíveis. Porque significa que o desejo foge a normas e regulamentos vários.
Porque significa que elxs também podem se atrair por pessoas diferentes do que gostariam.

3 de jan. de 2013

Um dia sairemos às ruas. E haverá cheiro de chuva no ar. Haverá um frio na boca do estômago. Uma ansiedade do desconhecido.
Nós não estaremos com fome. Nem com frio. Nem com medo. Nós não "teremos" de trabalhar para viver e viver para trabalhar. Nós não teremos que ser protegidxs de ninguém mais.
E o mantra, agridoce em nossas bocas, virá como um sopro de vida: "Livres enfim."