Esse blog é todo em prosa (poética), onde ficção e militância se apresentam misturadas. Bem-vindxs ao que há de mais honesto em mim.
7 de jan. de 2013
3 de jan. de 2013
Um dia sairemos às ruas. E haverá cheiro de chuva no ar. Haverá um frio na boca do estômago. Uma ansiedade do desconhecido.
Nós não estaremos com fome. Nem com frio. Nem com medo. Nós não "teremos" de trabalhar para viver e viver para trabalhar. Nós não teremos que ser protegidxs de ninguém mais.
E o mantra, agridoce em nossas bocas, virá como um sopro de vida: "Livres enfim."
Nós não estaremos com fome. Nem com frio. Nem com medo. Nós não "teremos" de trabalhar para viver e viver para trabalhar. Nós não teremos que ser protegidxs de ninguém mais.
E o mantra, agridoce em nossas bocas, virá como um sopro de vida: "Livres enfim."
10 de jul. de 2012
I Encontro de Mulheres da UFRJ - Observações
Nas
últimas duas semanas, participei da construção do I Encontro de Mulheres da
UFRJ. Éramos mulheres de umas três ou quatro correntes políticas e com o desejo
de nos auto organizarmos, termos em nossas mãos as rédeas da nossa luta. Promovemos
quatro mesas com diferentes palestrantes e uma rodada de Grupos de Trabalho
para verbalizarmos o acúmulo dos debates e o que queríamos de diferente em
nossa universidade e em nosso mundo.
Sonhei
um Encontro com a presença de dezenas de estudantes com dezenas de visões de
mundo. Sonhei um Encontro com falas incríveis das palestrantes e
problematizações surpreendentes das participantes. Sonhei um Encontro que
contasse com a presença de gente que não está no Movimento Estudantil, que não
está dentro dessa lógica e que não está familiarizada com o debate feminista.
Antes
de falar do Encontro em si, falo um pouco de mim: eu não tenho muito acúmulo
teórico sobre o feminismo. Nem sobre que mundo eu quero no futuro (que vocalizo
dizendo “comunista” e tendo a certeza de quão incipientes são as bases dessa
afirmação). Ainda tenho muito a ler e muito mais a debater. Mas eu estou
(sempre) pronta para um bom debate.
(Sempre) pronta para perguntas que não tinha feito antes e respostas de
quem já leu e ouviu mais do que eu, características que cultivo voluntariamente
e que prezo em outros também.
Infelizmente,
nem todas as (nem tantas) pessoas que se dispuseram a participar do Encontro
gostavam de ouvir discordâncias. A maioria esmagadora de participantes era de
rostos que conheço desse gueto que chamamos Movimento Estudantil. E a maioria
já foi para lá com uma visão pré-concebida de mundo, querendo apenas fazer com
que outros mais a absorvessem também. E as palestrantes? Algumas tiveram falas
boas, algumas tiveram problematizações interessantes, muitas ficaram no raso do
raso, reproduzindo lugares comuns e atestando desconhecimento (do mundo real
mesmo). Cheguei a ouvir na fala de uma delas um causo clássico, de uma vez em
que estava se depilando no salão, sentindo muita dor com a cera, e a depiladora
disse: “E ainda tem gente que acha que as mulheres são o sexo frágil”. É sério
mesmo? Vamos passar horas da nossa vida nos reunindo, organizando um evento,
dizendo para as pessoas que será bom, que será diferente, para ter uma mulher
que vai lá crente que está abafando dizer uma coisa que eu leria na Nova? Que
reproduz lugares-comuns machistas desse nível e ainda quer aplausos no fim?
Para
além disso, me sinto desconfortável em ser a pessoa que fala o tempo todo em
Creche Universitária, não é meu assunto favorito. Mas é um assunto que vejo que
minhas companheiras e meus companheiros não fazem a menor ideia do que estão tratando,
é um dos assuntos que pode dar muito errado se mal conduzido e um assunto que
tenho como dar uma mínima contribuição teórica graças à minha mãe. E tenho que
ficar batendo sempre nas mesmas teclas quando falamos nesse assunto (assim como
sempre tenho que fazer a questão de ordem sobre minha alergia a tabaco em todo
e qualquer espaço do M.E. – mesmo que os presentes sejam sempre as mesmas
pessoas). As pessoas não se convencem de que quando pedimos que a creche universitária
da UFRJ apenas para as mulheres da UFRJ estamos:
a) Reproduzindo a maldita lógica machista de que criança é trabalho de mulher,
b) Esquecendo de que, num geral, quando um homem da UFRJ tem um filho e não tem creche para deixá-lo, não vai deixar de estudar. Vai largar o filho com alguma mulher.
a) Reproduzindo a maldita lógica machista de que criança é trabalho de mulher,
b) Esquecendo de que, num geral, quando um homem da UFRJ tem um filho e não tem creche para deixá-lo, não vai deixar de estudar. Vai largar o filho com alguma mulher.
E ainda
decidimos falar sobre o machismo nas calouradas. Beleza, falamos o óbvio do
óbvio. Como se ninguém soubesse que os nossos trotes são machistas. O que
faltou falar foi de outras tantas práticas machistas da comunidade universitária e da nossa sociedade em geral, faltou (muito) falar foi sobre saúde reprodutiva, faltou (muito) falar de limitação de papeis de gênero e como isso afeta todxs da nossa sociedade.
Ainda bato
com força na tecla que, quando decidimos, em um encontro feminista, separar as
questões ligadas à heteronormatividade de nossa sociedade das que mostram
outras cores do arco-íris erótico humano, reproduzimos a velha lógica de “eles”
e “nós”. Quando não olhamos para nossa sociedade como uma sociedade que
valoriza características ligadas a um único modelo de homem e que exclui todo o
resto, quando não vemos que “o resto” é um só (com múltiplas nuances de
especificidades), temos uma visão fragmentada e parcial da realidade. E não
chegamos muito longe (e nos mantemos na lógica opressora).
Há mais
impressões, que não tenho tão concretamente formuladas na minha cabeça. Coisas boas,
certamente, que aconteceram. Falas que me intrigaram, conversas de corredor que
me animaram. Mas, num geral, ficou um gosto amargo na boca e o sentimento de
que não culpo quem decidiu não participar. Eu mesma não sei muito bem do que
participei.
24 de jun. de 2012
Luísa
Os desníveis da rua mal calçada já
foram um desafio aos pés outrora pequenos de Luísa. Nem tanto tempo se passara
quando não bastava apenas dar-lhe a mão e caminhar ao seu lado na rua. Nem
tanto tempo se passara quando cada segundo de atenção era necessário, quando
cada deslize significava um tombo, um ferimento e uma crise de choro.
Luísa deixava progressivamente de
ser uma coisinha frágil para tornar-se independente, voluntariosa. “Chozinha”,
dizia ela, recusando qualquer ajuda nos projetos que já se considerava apta a
realizar. Era difícil aceitar que ela quase não quisesse mais colo, não
quisesse mais ter os cabelos escovados. Por outro lado, Luísa ainda adorava
mimos como deixar suas mãozinhas servirem de moldes para desenhos que acabavam
ficando invariavelmente tortos, já que ficar quieta não era uma de suas
qualidades. Adorava ouvir histórias (embora gostasse cada vez mais de
contá-las), adorava dançar.
E Titia fazia tudo; dançava, contava
histórias, desenhava tudo o que ela pedisse (“Gatinho”, “Bolinha”, “Cobrinha”,
“Cacalé”) e deixava-a agora pentear os cabelos de Titia. Luísa aprendeu rápido
que cuidar é quase tão gostoso quanto ser cuidada.
Ela vinha mais ou menos uma vez por
mês à casa de Vovô e Vovó, onde todos se revezavam em olhá-la, paparicá-la,
apertar suas bochechas e enrolar seus cachinhos. E ela ria, ria, deixando suas
covinhas bem à mostra quando Titio fazia cócegas nela, levava-a nos ombros ou
fazia macaquices. Luísa, aquele toco de gente espertinho, fazia Vovô de gato e
sapato nas suas brincadeiras, derrubando todas as casinhas de bloquinhos e
amassando involuntariamente as gaivotas de papel ao tentar lançá-las também. De
Vovó ela queria sempre o maior chamego, a maior atenção. Queria comer com Vovó,
se vestir com Vovó, desenhar com Vovó. E Titia dançava, Titia desenhava, Titia
dava banho em Luísa,
Titia inventava histórias.
Luísa também se revezava em dar
atenção àqueles adultos carentes, que sempre queriam os beijos, os risos e os
mimos dela. Às vezes, existia apenas Titio e ela ficava manhosa o dia todo,
jogando charme, querendo colo, querendo tudo. Às vezes, chamava por Vovó, tinha
ciúmes de Vovô. E havia dias em que Titia era contemplada com o centro de suas
atenções. Nesses dias, Luísa queria passear, queria usar o mesmo pente que
Titia, queria usar os mesmos tic-tacs no cabelo, queria correr adoidada pela
casa ou dançar as coreografias que as duas inventavam para as músicas favoritas
de Luísa. “A do pintinho”, “A do gatinho”, “A do jacaré” (ou “cacalé”, na
linguagem particular da mocinha)... E elas riam, falavam, calavam. Titia
gostava de ficar longos momentos em silêncio, olhando os cachinhos, olhando a
pele morena, olhando os olhos de cílios tão grandes, olhando a boquinha de
dentes tão pequenos. Titia gostava dos beijos molhados, dos banhos quentes, dos
lanches demorados. Gostava de levá-la até a Galeria para ver os peixinhos,
quando Luísa dava gritinhos de prazer vendo-os nadar em círculos.
Titia gostava mesmo de ver Luísa
vendo o mundo, de pegar emprestado um pouco da magia que o mundo tinha para sua
pequenininha, de rir sozinha na rua, lembrando o fim-de-semana que passaram
juntas. Titia sempre achou que o mundo não teria graça nenhuma se as crianças
não existissem, que felicidade completa é se espantar com tudo todo dia, e Luísa
trazia tudo isso, em forma de cheirinho de bebê, farelos de biscoito maisena e
covinhas.
12 de mai. de 2012
Algumas ideias sobre a maternidade por uma não-praticante
Ser mãe não deveria ser uma obrigação, um pré-requisito de “ser
mulher”; não deveria ser maior ou menor do que ser pai e nem necessariamente
distinto. Mãe é conceito múltiplo existente em múltiplas sociedades, nas mais
diversas formas. Mãe não devia ser o único sonho digno que todas as mulheres
devem almejar, não devia ser um sonho “mais importante” do que ser bombeira, atleta,
artesã ou vendedora. Mais importante do que gostar de bichos, de acampar ou de
sexo. Mãe devia ser um sonho e, como sonho, fruto de preparativos e esforço. Nenhuma
grávida devia passar pelo horror de ter como única opção parir, nutrir, educar
e amar um feto indesejado ou ser punida por tirá-lo ou deixá-lo em um abrigo
para alguém que queira ser mãe/pai. Nenhuma mulher deveria ter que ser mãe
sozinha. Nenhum Estado, nenhuma sociedade deveria nos deixar desamparadas. Nenhum
parto deveria ser um pesadelo, nenhum médico devia destratar uma parturiente,
sua/seu acompanhante (se houver) e o bebê. Nenhuma cesárea deveria ser imposta.
Mães devem lembrar que também são mulheres, amigas, amantes, profissionais. Mães
podem sê-lo desde a fecundação do óvulo; podem ser desde a primeira vez que viram
aquela criança; podem decidir assumir o papel quando de
repente chamadas assim.
Ser mãe devia ser uma escolha dos sentimentos entre uma
mulher e seu/sua filhx. Para o resto de suas vidas.
3 de abr. de 2012
Sou carne da carne que vocês feriram, sou sangue do sangue que vocês derramaram
Pena que nessa foto não dá para ver quão pichada estava a camisa e as mãos pintadas de vermelho sangue...
No rosto e no pescoço são todos nomes de meus familiares que foram torturados/perseguidos. Estão escritos: Aquino (avô), Cid (Benjamin, primo), Cesar (Benjamin, primo), Ruth (Cascón, tia-avó) e Iramaia (Benjamin, tia-avó). Nas costas tem ainda Cascón (tio-avô) e, na blusa, tem Regilena (minha vódrasta), Jaime e Maria Lúcia (Petit, que não são parentes, mas são como se fossem).
Sendo que eu descobri que esqueci de nomes. Meu bisavô, o jornalista Pedro da Motta Lima também foi perseguido (pelo Vargas e pelos milicos, por sinal) e morreu no exílio. Uma das minhas primas, a Marta foi presa também. Meu avô postiço, pai da minha madrinha, Laci Felício também foi preso... (vou acrescentando mais nomes e corrigindo erros de memória nesse post conforme meus familiares forem lembrando deles)
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